23 dezembro, 2009

liberdade na tv

De umas semanas para cá tenho visto pela TV o comercial de uma tal de ABPTA - Associação Brasileira dos Programadores de Televisão por Assinatura - contra um tal projeto de lei que prevê que as operadoras e os canais fechados tenham cotas mínimas de programação nacional em suas grades e programação.

Há um certo clima de afetação no filmeco de 30 segundos e no final eles indicam um link para o site do movimento, incrivelmente chamado de Liberdade na TV - nome que imediatamente me faz lembrar aqueles grupos de extermínio africanos que têm nomes bonitos como Exército da Liberdade e Amor, mas que no final se limitam a matar criancinhas e incendiar vilarejos.

Enfim,

entrei no site, que afirma representar canais estrangeiros no Brasil e é mancumunado com a ABTA, aquela mesma que há anos vem dando escândalo por conta da abusiva cobrança de pontos adicionais, mamata que eles tanto querem manter a qualquer custo. Em tom de ameaça (usando aquela velha tática do quem avisa amigo é), dizem que a tal lei pode fazer o preço dos pacotes básicos pode subir até em 80%, enquanto clamam motes deliciosamente hipócritas como "Não me digam o que devo assistir/ ajude quem quer produzir/ Liberdade significa mais concorrência/ Concorrência significa mais opções/ Diga sim à liberdade". Achou sem sentido? Eu também. E vai além, como o trecho a seguir, diretamente retirado de seu FAQ:

Apesar de existir uma cota para obras européias em 50% do tempo de transmissão, a União Européia é composta por 27 países que produzem conteúdo. Esta regra foi estabelecida justamente para fortalecer o bloco e permitir a diversidade cultural entre os países membros.

Se eu entendi direito, sob essa ótica, o Brasil, que "não produz conteúdo", nunca irá produzir, mas não há motivos para isso porque existe uma unidade cultural nacional. Mas claro, eles apresentam alternativas genias às cotas. Se segura, por que agora o lance fica FODA:

• Revisar a incidência tributária, aprimorando os atuais mecanismos já consagrados de fomento, como aqueles estabelecidos na Lei Rouanet, para incentivar o desenvolvimento de obras audiovisuais nacionais e o patrocínio de produções nacionais.
• Permitir que parte dos recursos do FUST, contribuição esta criada para viabilizar o dever legal das concessionárias públicas de universalizar a telefonia fixa, seja utilizado para fomentar a produção nacional.
• Fortalecer os mecanismos anti-pirataria e aprimorar a fiscalização para que os produtores nacionais sejam devidamente remunerados.
• Promover campanhas educacionais nas escolas para valorização do conteúdo nacional. Cota para programação de conteúdo nacional durante o horário nobre na TV por assinatura não cria demanda!
• Incentivar investimentos estrangeiros em produções nacionais, que além de gerar emprego no país permitirá a difusão da cultura brasileira.

Traduzindo:
•Menores impostos (pra eles)
•Financiamento do governo (a.k.a. dinheiro fácil)
•Combate à pirataria (o que só beneficia a eles) 
•Criar demanda (só colocaram isso pra parecerem nobres, mas não se deixe enganar)
•Incentivar a entrada de dinheiro gringo (o que deveria ser tarefa deles, não do governo)
 É preciso ser um tanto cego, ignorante ou alimentar uma boa síndrome de Estocolmo pra apoiar a ABPTA nessa jornada Quixotesca aparentemente estimulada unicamente pelo desejo de não ter que tirar sua honorável bunda da cadeira. Não questiono os méritos da lei, mas não é preciso forçar muito a memória para lembrar que as empresas de TV por assinatura - assim como tantas outras - historicamente se preocupam mais em defender seus próprios interesses do que lutar pelos interesses de seus consumidores

São elas que vivem tentando inventar novas taxas de instalação, manutenção, aluguel de equipamentos, fidelizações, reconfiguração de planos, mudanças de canais e outras coisinhas e coisonas que no final das contas só ferram o tal consumidor que eles dizem tanto defender agora.

Duro, muito duro de acreditar.

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