Ao contrário do que pode parecer, a decisão do governo federal em aumentar o IPI de veículos importados não afeta necessariamente aqueles que têm R$30 mil, R$40 mil, R$50 mil, R$100 mil ou R$200 mil para gastar em um automóvel. Mas cai como um (silencioso) raio na cabeça daqueles que não têm dinheiro para casa, carro ou comida.
Os que têm tamanha soma guardadas em suas poupanças para gastar em quatro rodas continuarão com esta soma reservada para torrar onde desejarem. Mas este aumento de imposto ilustra de maneira clara as dificuldades daqueles que estão parados à beira do caminho esperando sua vez no bonde da história.
É fato vencido de que os veículos nacionais são especialmente caros. Bem caros. Os fabricantes costumam jogar a culpa sobre essas somas sobre impostos, preço da mão de obra e ao famigerado "custo Brasil": balela, balela, balela.
Sim, os impostos por aqui são altos e talvez a mão de obra seja cara. Mas nada que justifique a diferença de até 300% de um mesmo modelo no Brasil do que nos EUA, por exemplo. É claro que um operário brasileiro ganha mais que um colega chinês, mas é lógico que ganha menos do que seus pares que vivem nos EUA, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, França, Coreia e Japão - e ainda assim, modelos destes países até semana passada chegavam por aqui por preços competitivos.
Ainda que não fossem exatamente campeões de vendas ou muito menos exatamente baratos, os veículos chineses tinham uma importante função social desde sua chegada ao Brasil: âncoras de preços. A mais nova geração do Gol chegou às lojas em 2009 à partir de R$ 29.999, e hoje custa um pouco abaixo disso. Já o Fiat Uno viu seus preços caírem quase 10% desde seu lançamento, entre tantos exemplos.
O aumento de imposto que vimos na semana passada revela um dos lados mais covardes do mercado. A mesma livre concorrência que é festejada e estimulada quando os grandes estão ganhando é castrada e pisoteada sem remorsos quando a maré se torna menos favorável. Então vemos uma medida tomada às pressas para proteger um mercado que vem batendo recordes consecutivos de vendas.
Os altos preços dos veículos das grandes marcas instaladas no Brasil são uma bela matata. Sustentam suas matrizes no exterior e permitem que essas mesmas empresas ofereçam seus produtos a 50% do preço cobrado por aqui. Metade das vendas globais da Fiat acontecem por aqui e a GM do Brasil foi a única a operar no azul quando sua mãe norte-americana se jogava à falência.
Desta feita, pagamos a conta dos gringos, enquanto nós mesmo não conseguimos individualmente nos lançar a grandes voos. Este aumento de imposto mostra que as forças que controlam nossas vidas não são necessariamente justas ou estão a nosso favor. Assim vai, e assim será.
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Certamente eu seria muito mais raivoso e virulento caso fosse o outro candidato que estivesse no comando do país. Isso me serviu de lição. Ainda sou simpático ao governo, tenho que me lembrar que definitivamente política é um esporte sangrento e que grandes empresas podem jogar realmente baixo para conseguir o que querem.
Aprendi mais uma.
J. Online
19 Setembro, 2011
14 Setembro, 2011
medo desses hyundai
Começo de noite de uma terça-feira. Depois de mais um dia de trabalho pego minhas coisas e vou para casa. Enquanto caminho em direção a meu carro a normalidade dos eventos é interrompida por uma buzina aguda.
Uma elegante senhora de uns 40 e poucos anos deu ré em seu Hyundai ix35 sem se preocupar muito com o trânsito ao redor - que aliás, costuma ser leve no horário. Só não acertou um Ecosport e um Corsa que passavam na rua em sua manobra imprudente porque o motorista do Ford protestou com de maneira contundente com um longo buzinar.
A motorista do Hyundai gritou "você é louco", mas deixou os dois passarem. Então saiu acelerada, fazendo uma curva de raio excessivamente aberto no sentido em minha direção - no sentido contrário em que iam os carros que ela quase acertou.
Se eu não desse um passinho para trás e voltasse para a calçada, a madame me atropelaria com seu Hyundai. Me pegaria sobre uma faixa de pedestres no que, para ela, seria a contramão da vida. Apenas pensei "ah, Hyndai" antes de vê-la passando por um semáforo verde com uma determinação que me faz ter certeza de que ela não pararia mesmo se ele estivesse vermelho.
Não tenho absolutamente nada contra os carros da Hyundai. Não passam de lata, plástico, tecido e borracha quanto quaisquer outros da rua. Mas longe de condenar publicamente todos que optam por modelos da marca, me confesso abismado com a preferência que um tipo bem determinado de pessoa tem por estes carros coreanos.
Parecem ter a preferência daquele tipo rico que gosta de ver os outros por cima. Daquele tipo que acha que não precisa exatamente cumprir todas as leis de trânsito, todos os códigos de conduta, todas as regras do bem-viver, todos os códigos de educação, mas que se revolta profundamente se qualquer um lhe falta com os modos. Aquele tipo de gente que não olha serviçais nos olhos e que acredita que de fato existe um tipo inferior de gente. Aquele tipo que acha que dinheiro compra bom gosto.
Enfim, um tipo bem conhecido de gente, que no trânsito vira um perigo à bordo de seus Hyundai num frequência bem mais alta do que nos Ford, VW, Chevrolet, Fiat, Honda, Toyota, Renault, Peugeot e tantas outras que estão por aí. Nem mesmo a Kia, outra coreana que vem chamando a atenção nos últimos tempos por conta de seus altos índices de qualidade, atrai tanto esse tipo de gente. O problema é com a Hyundai mesmo.
Tantas (inúmeras!) fechadas de Tucson, tantos Azera ocupando duas vagas nos shoppings, quantos i30 andando devagar no meio da rua ou rápido demais na faixa da direita. Não pode ser coincidência, não tem como.
Um dos culpados, acredito, pode estar nas propagandas da marca. Mentirosas compulsivas, citam prêmios que não existem e virtudes irreais com um narrador que faz vozes sexuais, que quase tem um orgasmo ao dizer o nome da marca e dos carros. Aquele tipo de gente parece ser bem esquisita.
Não me ofereço a tecer conclusões. Apenas sugiro que tal fenômeno seja estudado com cuidado. Uma marca de carros conseguiu compreender com perfeição a psiquê de uma problemática classe média local, que nos últimos tempos tem se usado o racismo, homofobia, mentiras e terror para se defender de um povo que a olha de maneira cada vez mais desconfiada. Um novo veículo, supostamente luxuoso e sofisticado, para pessoas supostamente educadas e cidadãs. Aí tem.
Uma elegante senhora de uns 40 e poucos anos deu ré em seu Hyundai ix35 sem se preocupar muito com o trânsito ao redor - que aliás, costuma ser leve no horário. Só não acertou um Ecosport e um Corsa que passavam na rua em sua manobra imprudente porque o motorista do Ford protestou com de maneira contundente com um longo buzinar.
A motorista do Hyundai gritou "você é louco", mas deixou os dois passarem. Então saiu acelerada, fazendo uma curva de raio excessivamente aberto no sentido em minha direção - no sentido contrário em que iam os carros que ela quase acertou.
Se eu não desse um passinho para trás e voltasse para a calçada, a madame me atropelaria com seu Hyundai. Me pegaria sobre uma faixa de pedestres no que, para ela, seria a contramão da vida. Apenas pensei "ah, Hyndai" antes de vê-la passando por um semáforo verde com uma determinação que me faz ter certeza de que ela não pararia mesmo se ele estivesse vermelho.
Não tenho absolutamente nada contra os carros da Hyundai. Não passam de lata, plástico, tecido e borracha quanto quaisquer outros da rua. Mas longe de condenar publicamente todos que optam por modelos da marca, me confesso abismado com a preferência que um tipo bem determinado de pessoa tem por estes carros coreanos.
Parecem ter a preferência daquele tipo rico que gosta de ver os outros por cima. Daquele tipo que acha que não precisa exatamente cumprir todas as leis de trânsito, todos os códigos de conduta, todas as regras do bem-viver, todos os códigos de educação, mas que se revolta profundamente se qualquer um lhe falta com os modos. Aquele tipo de gente que não olha serviçais nos olhos e que acredita que de fato existe um tipo inferior de gente. Aquele tipo que acha que dinheiro compra bom gosto.
Enfim, um tipo bem conhecido de gente, que no trânsito vira um perigo à bordo de seus Hyundai num frequência bem mais alta do que nos Ford, VW, Chevrolet, Fiat, Honda, Toyota, Renault, Peugeot e tantas outras que estão por aí. Nem mesmo a Kia, outra coreana que vem chamando a atenção nos últimos tempos por conta de seus altos índices de qualidade, atrai tanto esse tipo de gente. O problema é com a Hyundai mesmo.
Tantas (inúmeras!) fechadas de Tucson, tantos Azera ocupando duas vagas nos shoppings, quantos i30 andando devagar no meio da rua ou rápido demais na faixa da direita. Não pode ser coincidência, não tem como.
Um dos culpados, acredito, pode estar nas propagandas da marca. Mentirosas compulsivas, citam prêmios que não existem e virtudes irreais com um narrador que faz vozes sexuais, que quase tem um orgasmo ao dizer o nome da marca e dos carros. Aquele tipo de gente parece ser bem esquisita.
Não me ofereço a tecer conclusões. Apenas sugiro que tal fenômeno seja estudado com cuidado. Uma marca de carros conseguiu compreender com perfeição a psiquê de uma problemática classe média local, que nos últimos tempos tem se usado o racismo, homofobia, mentiras e terror para se defender de um povo que a olha de maneira cada vez mais desconfiada. Um novo veículo, supostamente luxuoso e sofisticado, para pessoas supostamente educadas e cidadãs. Aí tem.
06 Maio, 2011
correspondência a um amigo
No último sábado conversava com o amigo @danielfilho a respeito do próximo big hit tecnológico que a humanidade deverá e poderá encarar. Segue:
(...)
Conversávamos sábado a respeito do que será a próxima internet, você se lembra. Acabei refletindo um tanto a respeito do assunto e me ocorreu uma coisa que gostaria de compartilhar com vc.
Deve ser de nossa natureza supervalorizar os tempos em que vivemos. Primeiro porque (pelo menos em teoria) o que fazemos é que mantém o mundo funcionando. Depois que dada nossa proximidade com os fatos temos grande dificuldade em relativizar nossos tempos dentro de um contexto histórico. Imagine que no final do século XVIII os britânicos não deviam imaginar que o advento da máquina a vapor daria início à tal da revolução industrial - que seria figura obrigatória dos livros de história depois de 300 anos - ou que a queda do império francês iria mudar a política em todo o mundo. Os exemplos são abundantes por aí.
Agora imagine um personagem qualquer que tenha nascido 100 anos antes que a gente nos EUA, mais precisamente no Texas ou Califórnia, e que tenha vivido 90 anos. Vamos chamá-lo de Willy.
Nascido no começo da década de 1880, Willy nasceu na plenitude do período que conhecemos como o velho oeste. Naquela época o telefone ainda estava em desenvolvimento e o automóvel ainda não havia sido inventado. Não existia distribuição de energia elétrica ou saneamento. O avião só seria inventado em 1906, o plástico só seria "domado" em 1909 e a primeira transmissão comercial de rádio só aconteceria - olha só - em 1920. Até a morte de Willy a humanidade ainda criaria a bomba atômica, criaria os primeiros computadores e chegaria à lua. E então só aí nós nasceríamos.
Talvez daqui a 300 anos a criação da internet seja vista como um passo com a dimensão da revolução industrial ou será jogada nos rodapés dos livros (livros?) de história como uma ressaca dos tempos de nosso Willy. Nunca saberemos disso. Quando vemos exercícios de futurologia dos anos 30, 40 ou 50 temos um mundo de carros que voam, roupas metálicas e viagens espaciais rotineiras já em 2000 - há 10 anos. Sob a ótica de um sujeito que viu dramáticas revoluções técnicas em praticamente todos os campos de sua vida cotidiana num espaço tão curto de tempo, tais hipóteses não são tão absurdas.
Esperar por uma "nova internet" pode ser uma bobagem sem tamanho do ponto de vista histórico. Antes de cada revolução técnica existe um esgotamento técnico/conceitual da tecnologia existente um rompimento de seus valores, uma crise e uma nova criação. Já as criações do "tempo de Willy" ainda parecem estar em franco desenvolvimento. Um smartphone é a fusão de um computador, um rádio e um telefone, a internet é uma fusão de uma série de mídias que nós já conhecíamos. Um automóvel elétrico dispensa o motor a combustão, mas não inova em outros aspectos - é apenas um automóvel.
Antes de uma eventual crise ainda deverão ver uma série de sinergias técnicas, fusões de funcionalidades e esgotamento de possibilidades - e será aqui onde nós vamos entrar. Acredito que não estamos exatamente numa fase de criação técnica, mas sim em uma fase de rápido refino e aperfeiçoamento. O que surgir depois disso provavelmente não irá pertencer a nós.
(...)
Conversávamos sábado a respeito do que será a próxima internet, você se lembra. Acabei refletindo um tanto a respeito do assunto e me ocorreu uma coisa que gostaria de compartilhar com vc.
Deve ser de nossa natureza supervalorizar os tempos em que vivemos. Primeiro porque (pelo menos em teoria) o que fazemos é que mantém o mundo funcionando. Depois que dada nossa proximidade com os fatos temos grande dificuldade em relativizar nossos tempos dentro de um contexto histórico. Imagine que no final do século XVIII os britânicos não deviam imaginar que o advento da máquina a vapor daria início à tal da revolução industrial - que seria figura obrigatória dos livros de história depois de 300 anos - ou que a queda do império francês iria mudar a política em todo o mundo. Os exemplos são abundantes por aí.
Agora imagine um personagem qualquer que tenha nascido 100 anos antes que a gente nos EUA, mais precisamente no Texas ou Califórnia, e que tenha vivido 90 anos. Vamos chamá-lo de Willy.
Nascido no começo da década de 1880, Willy nasceu na plenitude do período que conhecemos como o velho oeste. Naquela época o telefone ainda estava em desenvolvimento e o automóvel ainda não havia sido inventado. Não existia distribuição de energia elétrica ou saneamento. O avião só seria inventado em 1906, o plástico só seria "domado" em 1909 e a primeira transmissão comercial de rádio só aconteceria - olha só - em 1920. Até a morte de Willy a humanidade ainda criaria a bomba atômica, criaria os primeiros computadores e chegaria à lua. E então só aí nós nasceríamos.
Talvez daqui a 300 anos a criação da internet seja vista como um passo com a dimensão da revolução industrial ou será jogada nos rodapés dos livros (livros?) de história como uma ressaca dos tempos de nosso Willy. Nunca saberemos disso. Quando vemos exercícios de futurologia dos anos 30, 40 ou 50 temos um mundo de carros que voam, roupas metálicas e viagens espaciais rotineiras já em 2000 - há 10 anos. Sob a ótica de um sujeito que viu dramáticas revoluções técnicas em praticamente todos os campos de sua vida cotidiana num espaço tão curto de tempo, tais hipóteses não são tão absurdas.
Esperar por uma "nova internet" pode ser uma bobagem sem tamanho do ponto de vista histórico. Antes de cada revolução técnica existe um esgotamento técnico/conceitual da tecnologia existente um rompimento de seus valores, uma crise e uma nova criação. Já as criações do "tempo de Willy" ainda parecem estar em franco desenvolvimento. Um smartphone é a fusão de um computador, um rádio e um telefone, a internet é uma fusão de uma série de mídias que nós já conhecíamos. Um automóvel elétrico dispensa o motor a combustão, mas não inova em outros aspectos - é apenas um automóvel.
Antes de uma eventual crise ainda deverão ver uma série de sinergias técnicas, fusões de funcionalidades e esgotamento de possibilidades - e será aqui onde nós vamos entrar. Acredito que não estamos exatamente numa fase de criação técnica, mas sim em uma fase de rápido refino e aperfeiçoamento. O que surgir depois disso provavelmente não irá pertencer a nós.
05 Maio, 2011
perdendo a inocência
Examina os documentos rapidamente e então, com os olhos fixos na tela do computador, me pergunta:
-Desde quando você vive neste endereço?
-Agosto de 98.
-Mas em nosso cadastro atual consta abril de 2007.
-Mas eu moro na mesma casa desde agosto de 98.
-Aqui consta abril de 2007.
-Agosto de 98.
-Abril de 2007.
-Agosto de 98.
-Abril de 2007.
-Abril de 2007.
-Abril de 2007?
-Abril de 2007.
-Então ótimo.
17 Abril, 2011
a triste verdade
Lendo alguns posts antigos deste blog, constatei que eu era mais legal antigamente.
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