11 agosto, 2009

pequenos finais

Ontem, por um desses acasos que acontecem por aí, entrei numa daquelas lojas que vendem revistas, mas que não são exatamente bancas de jornal – basicamente porque são feitas de alvenaria, não de chapas de metal. Em uma parede, havia as prateleiras com revistas e jornais, e em outra, um balcão que vendia material de papelaria. Nada de luxuoso, mas tremendamente digno. Sentado num banquinho ao lado da entrada, estava seu dono, um senhor de 75 anos que não vivia seus dias mais felizes.

Na realidade, lamentava. Seu humilde negócio, localizado num bairro sem-vergonha da cidade, dava seus últimos suspiros. “Porcaria, tudo porcaria. De todas essas revistas, só 10% delas vendem. O resto fica aí. Vou esperar mais um ou dois meses...”, dizia desconsolado, olhando para o que parecia ser o derradeiro momento de seu pequeno império, que já vivera dias mais felizes. Aberta há 25 anos, a lojinha fica localizada em uma rua que antigamente era o único caminho para os milhares de moradores das redondezas irem ao centro da cidade, mas a urbanização da área é apontada apenas como um dos fatores para a diminuição do movimento: “hoje em dia a internet dá tudo, o rádio da tudo... o que sobra para os jornais e as revistas?”, perguntava.

A discussão a respeito da sobrevivência dos impressos à era da internet é longa e desinteressante, mas no mundo real – tantas vezes desprezado pelos estudiosos de qualquer natureza – a coisa seja um tanto diferente. Antigamente não se encontravam revistas, jornais e outros produtos diversos em supermercados ou padarias, e pelo menos por aqui os shopping centers (que em inglês são conhecidos como mall) eram um luxo dos grandes centros urbanos. A concorrência de redes de atuação nacional – seja na venda de revistas, roupas, livros, alimentos e etcetera – faz com que sobre pouco, muito pouco, para os pequenos comércios familiares, localizados nas ruas movimentadas da cidade e tocados por gente mais interessada em ajeitar sua vida do que em discutir das tendências do consumo para as próximas décadas. E seja lá o segmento de mercado, os primeiros que sentem o baque são eles.

A conversa continuou por alguns minutos. Descobri que o senhor é o membro de maior idade de uma tradicional família da cidade: "por isso tenho que tomar cuidado com a saúde, porque o próximo pode ser eu", disse, enquanto olhava para o cenário decorado pelos sorrisos das celebridades estampados nas capas dos periódicos - sem dúvida, os mais felizes do recinto.

Acabei comprando duas revistas, o melhor que podia fazer dadas as circuntâncias. “A primeira venda do dia”, por volta das 15h30, um cenário pouco animador. Dei meus sinceros votos ao senhor que de que o melhor acontecesse, e simplesmente fui embora.

Um comentário:

Santiago disse...

É.. Vai embora e faz aquela cara, franzindo a testa, de que algo vai mal no mundo. Tipo quando vai chover e você tá sem guarda-chuva.

Eu gosto de papel e, apesar de já ler até quadrinhos com muita frequência no 'ecrã', acho uma merda pensar que vou passar mais de um mês sem aquele cheiro de papel, ou aquele cheiro úmido do papel suado, principalmente de papel offset ou de papel jornal e só fico sonhando com as 24 páginas que vou lançar do meu próprio material até 2010. Eu não sei como as pessoas vão sobreviver aos nichos, mas se eu disser que eu realmente me incomodo com a incapacidade delas de fazer isso, estaria mentindo, por que eu realmente me sinto parte de um nicho e acho tão corrido sustentar meu pequeno universo pessoal advindo disso, que eu não consigo ter tempo de olhar pra humanidade e pensar algo como, "Porra! Antigamente as coisas eram mais fáceis". Mas eu tiro o chapéu pras tuas palavras e faço dos teus votos os meus. Abraço Jão.